Dizer que o Brasil é um país de contrastes não passa de um cliché muito visto e que não transmite o significado literal do termo. O Brasil não é o local. O Brasil são as pessoas e a sua forma de estar diferente de tudo o que existe no mundo.
Casa
Tinhamos comprado uma casa numa viagem que fizemos há aproximadamente 6 meses e era necessário fazer “reformas” como aqui se diz. Por incrivel que possa parecer na casa que adquirimos 90% dos espaços não tinham luz natural. Parece que hoje já não deixam construir assim.
Bom, contratámos um arquitecto que nos foi recomendado e cujas ideias e planos mereceram o nosso aplauso. É uma pessoa prática e de bom gosto. Aprovámos o seu projecto, que no caso da cozinha previa uma ampla janela para um espaço ajardinado. Eis senão quando a construção atrasou (graças a Deus) e quando chegámos e fomos ver a obra descobrimos que a janela, da cozinha, constante no projecto tinha sido fechada e aberta uma muito pequenina numa parede que dá para debaixo de um telheiro (?!?). Resultado: a cozinha parecia uma cave. Mesmo ao meio-dia seria necessária a luz eléctrica.
Motivo da mudança desconhecida para nós: “o espaço poderia fazer falta para armários”
Ainda fomos a tempo....mandámos abrir a janela.
Descobrimos também quando chegámos, que as faixas decorativas que tinhamos escolhido para a cozinha (sempre a cozinha....) tinham cores, amarela verde e azul, quando tinhamos escolhido tons metálicos apenas, nomeadamente prateados.
O que tinha acontecido ? Muito fácil !! A loja não tinha para entrega o que tinhamos escolhido e a Srª, que nos tinha atendido uns meses antes, decidiu escolher ela uma alternativa que ela achou que era bonita.
Ainda fomos a tempo.....fomos descobrir algo de que gostávamos.
Funcionária
Muito embora haja um desemprego condiderável tivemos grande dificuldade em arranjar uma mulher-a-dias que também tomasse conta de crianças, por um periodo de 8 dias, tempo inicial após a nossa chegada que necessitavamos para nos organizar minimamente. Acabámos por ter de pagar um ordenado mínimo para esses oito dias...
A funcionária dizia sempre que não queria comer, pois estava anémica (?!?)....bom, parecia a funcionária ideal, desde que não se repetisse a história do cavalo do inglês. Quando nos ausentávamos de casa desaparecia misteriosamente comida....todo o pão, o açucareiro ficava vazio, os legumes desapareciam do frigorífico....
Dieta estranha mas, seguramente, mais saborosa na ausência dos patrões.
No entretanto, ela afeiçoou-se enormemente a uma revista que comprei da Scientific American: Um número especial sobre o envolvimento matemático do Infinito. Uma série de textos e curiosidades dos mais variados matemáticos na sua abordagem quer do infinitamente grande quer do infinitamente pequeno.
Senti-me pequenino.....
No Brasil, ou pelo menos aqui pela Bahia, todos os motivos são suficientemente bons para fazer um forró. Um forró é algo inquestionável. Que interessa o motivo, se ele está aí ?
Com maioria de razão se são festas em dias grandes, como o S.
Ilhéus é uma cidade pequena. Todos conhecem todos e todos fazem favor a todos, pois nunca se sabe quando podemos precisar de alguém. A força desta sociedade consiste nisso mesmo numa espantosa entreajuda.
Um dia recebemos um convite, através de uns amigos nossos, para ir a um forró num quartel. O motivo era, naturalmente, desconhecido de toda a gente, mas se o Coronel que comandava o regimento convidou....
Antes de ir para lá passámos num supermercado para levar comida feita, o que me levou a tecer considerações intimas sobre o orçamento que o Coronel tinha à sua disposição. Mas chegámos e fomos apresentados ao referido militar que, com enorme simpatia nos recebeu e fez questão em mostrar as instalações.
Ficámos pois a saber, não sem alguma surpresa, que as suas maiores dificuldades estavam em finalizar as obras de um recinto de festas, com churrasco e bar.
Passei grande parte da noite a falar com o Comandante da Marinha, que também estava presente. Um oficial alto, entroncado e com uma cultura geral absolutamente impressionante. Ele queixava-se que tem um muro para construir e pediu 6 orçamentos a 6 empresas. Está há mais de 3 semanas à espera dos mesmos. Nenhum apareceu ainda. Dizia ele: “não é a velocidade do cliente que importa, mas a velocidade do cara que está fazendo os orçamentos”
Numa das primeiras 6ªs feiras que por cá dormimos, no centro, pois a nossa casa ainda não está pronta, acordámos por volta das 04:00 com uma música altíssima que vinha de um carro. Sim, pois apesar das óbvias dificuldades de muitos locais existem muitos carros com instalações de som de vários milhares de watts. O objectivo, aparentemente único, é abrir as portas e bagageira e debitar o que lá têm.
Questionámos alguns amigos acerca da legalidade de tal acto, e foi-nos pacientemente dito que “pois...isso às vezes acontece nas noites de 6ª e sábado”
Este povo é dos mais pacientes que conheço. É verdadeiramente arrepiante a estoicidade com que se espera em filas kilométricas para executar qualquer acto por mais banal que seja, como pagar uma conta de luz.
Pese embora o facto de que o Brasil possui um dos mais avançados sistemas bancários do mundo, fruto dos anos de inflações galopantes em que não era possível que um depósito estivesse indisponível sequer 24h, o pagamento de serviços por máquinas multibanco não existe. Florescem assim negócios de pequenas empresas cujo único objecto de serviço é a....ida para a fila para pagar contas.
Mas ninguém se aborrece com ninguém. Num dos jogos do Brasil na Copa do Mundo, estávamos em casa de uns amigos em que o som da TV estava ligado (naturalmente) a um aplificador que alimentava uma coluna de som tipo exteriores. O som estava a um nível fisicamente agressivo e cada vez que por qualquer motivo se desligava, a esmagadora maioria dos presentes respirava de alívio......mas assim continuou até ao final do jogo, sem que ninguém reclamasse publicamente.

2 comments:
Gosto de te ler,
Gosto da tua forma de escrever,
Aprecio a tua cultura,
e delicio-me com o teu saber...
Obrigada!!
Gosto de te ler,
Gosto da tua forma de escrever,
Aprecio a tua cultura,
e delicio-me com o teu saber...
Obrigada!!
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