Saturday, February 24, 2007

Democracia - é mesmo ?

Nos últimos anos tenho-me interrogado cada vez mais sobre este conceito de sistema político em que todos os países (ou quase todos) fazem questão de se reafirmar - a Democracia.

Todos falam de democracia, métodos democráticos, formas democráticas de agir, mas não se tem lido ou estudado a evolução da democracia, desde que foi criada até aos dias de hoje, ou mesmo a forma como é utilizada.

A ideia, algo nebulosa, que paira no ar é que democracia é boa para todos e para tudo. O político afirma-se democrático, o cidadão ouve falar em democracia em todo o lado, logo deve ser coisa boa ...e então se o politico se afirma democrático vota-se nele.

Comecei a pensar neste tema, mais seriamente, com questão da queima dos lixos tóxicos originados em hospitais. O governo pretendia colocar em sufrágio universal, através de um referendo, se a queima devia ser feita nos fornos das cimenteiras ou em fornos especificamente construidos para o efeito.

Esta perspectiva....pôs-me a pensar...
Que raio ! Eu sou Engenheiro Electrotécnico com 50 anos e que nunca deixei de puxar pelo bestunto numa miriadade de actividades puramente técnicas....mas decidir sobre isto ?!?
Para começar teria de ler toda a literatura técnica sobre o tema....mas por outro lado duvido que a entendesse minimamente, uma vez que este é um assunto de uma especificidade extrema.

Mas então ? ...E a democracia ?

A Democracia começou na Grécia antiga, nomeadamente em Atenas, onde cidadãos - que eram quem podia votar e/ou ser eleitos - eram homens, não escravos nem estrangeiros. Isto é o que se vê na generalidade na documentação. Mas havia algo mais....para ser cidadão.


  • Tinha de ser filho de cidadão
  • A casar, tinha de casar com uma filha de cidadão
  • Tinha de cumprir um curriculum de educação para a cidadania, dos 5 aos 18 anos, que incluia 5 áreas de estudo: Filosofia, Algebra, História, Idiomas e Artes
  • Tinha de fazer serviço militar durante 2 anos

Só então, como cidadão, tinha os direitos politicos necessários á democracia ateniense, salvo se lhos tivessem retirado por algum delito, normalmente associado a fuga a impostos.

Independentemente dos aspectos negativos que possam rodear o sistema político da Grécia antiga, o facto é que já naquele tempo se entendia a necessidade da cultura e educação para formar quem viria a ter poder nas decisões de futuro.

Pois, este afinal era o meu problema na questão da eliminação dos lixos tóxicos. Eu não tinha, nem tenho, a educação necessária para tomar uma decisão. Com maioria de razão uma decisão que visasse a segurança e o bem estar da população.

Mas se eu com uma educação técnica esmerada, sem falsas modéstias, não tinha meios para tomar uma decisão, como é que a restante população, em geral, a podia tomar ?

A minha conclusão é que este tipo de decisões não pode ser tomado pela população, tem de ser tomado por especialistas...controlados por outros especialistas. Não pode ser o povo a escolher...porque não sabe. E ao tomar decisões para as quais não está habilitado, pode prejudicar-se de forma gravosa.

Claro que neste ponto, os "democratas" de trazer por casa já estão aos pinotes a dizer que este é o argumento com o qual começam as ditaduras....Eu respondo a sublinhar que esta é uma conversa séria (bom, talvez devesse dizer monólogo) e que fogachos "chapa 3" não eliminam o problema.

Olhemos para outras áreas....

Todos os meses é possível ler nos suplementos económicos dos jornais ou nas revistas económicas, que a empresa TAL, saíu de uma falência mais do que óbvia para um lucro tremendo, graças à contratação do gestor Fulano. Com isso mantiveram-se os postos de trabalho, asseguraram-se salários e manteve-se a estabilidade das comunidades onde a empresa estava localizada.

Pergunta-se: Os métodos de trabalho desse gestor terão siso democráticos, no sentido dele colocar à votação as suas decisões ?

Porque é que as decisões das empresas, nomeadamente as decisões estratégicas são tomadas apenas a nível de conselho de administração, muitas das vezes, juntamente com consultores externos especializados ? Porque não fazer sucessivos referendos entre todos os funcionários para decidir o que fazer ?

Porque é que num bloco operatório há pessoas que decidem na sua área o que fazer e não existem votações para decidir um curso de acção, principalmente quando as coisas correm mal ?

Porque é que existem hierarquias nas estruturas militares e as decisões não se tomam por votação ?

Cada vez mais assistimos, salvo raras excepções tais como os paises da Europa do Norte e de Leste, da India e da China, a um abandono de condições de educação global dos povos. Ou porque os povos são muito pobres, como na generalidade em África e América Latina ou porque os políticos, de tão apegados às fórmulas "democráticas" das promessas aliciantes, mas claramente impossíveis de cumprir, nunca querem largar o poder.

É preciso que um povo seja culto e educado para perceber se um candidato a um lugar de poder está a fazer promessas impossíveis ou se as suas promessas piorarão a vida do cidadão a prazo. Uma população que só se preocupa com o "hoje"....ou vá lá...com o "amanhã de manhá" não tem a cultura necessária para poder decidir sobre o seu próprio futuro, tal como não o tem uma criança a quem normalmente os pais ensinam, educam e dizem por que se deve fazer assim e não de outro modo.

Deixar os povos pouco esclarecidos decidir sobre o seu futuro, através de eleições, futuro esse que eles não têm capacidade de entender, pois não entendem as consequências dos seus actos "democráticos" é favorecer os cenários de bastidores, de enriquecimentos desmedidos dos sen-escrúpulos, é colocar num pedestal os detentores do poder atrás da cortina, pois os pobres coitados que foram eleitos a alguém têm de recorrer para pagar a sua eleição.

A democracia é o melhor sistema político para povos cultos e educados.

Mas ...e os outros ? Pois....aqui temos um busílis, mas também proponho uma solução....inspiremo-nos na antiga Grécia, mas naturalmente sem a cena do impedimento das mulheres, pois escravos já nem existem (bom, em teoria...mas fica para outro texto).

É só deixar o direito de voto a quem tenha recebido a necessária educação para ser considerado um bom cidadão. Quando eu era miúdo qualquer pessoa que tivesse a 4ª classe conseguia montar e gerir um negócio....hoje um recém-licenciado tem dificuldades em fazer contas de dividir ou mal lê jornais. Logo, o primeiro passo é a Educação. E para a cidadania a Grande Educação começa na escola primária com os conceitos de carcter, interesse social colectivo, curiosidade pelo que nos rodeia, pelo desenvolvimento do raciocínio...enfim, basicamente as 5 disciplinas da Grécia antiga, adaptadas ao mundo actual.

Quando os garotos de 10 anos souberem que devem respeitar o próximo, que não devem deitar lixo para as ruas, que devem estudar, que devem honrar a sua palavra, etc, etc, serão bons estudantes de cursos profissionais ou superiores e serão cidadãos conscenciosos dos seus deveres e dos seus direitos.

Claro que tudo isto tem um grande problema associado....herdado de décadas de "democracia" falaciosa: Nenhum candidato a governante (salvo raras e honrosas excepções) quer um povo culto, pois um povo culto não se deixa enganar e um povo culto acciona o que for preciso para pedir responsabilidades.

Pobres povos inebriados com a "democracia" fácil, inebriados com a falsíssima sensação de poder associada ao voto. São pobres que elegem pobres que, não sabendo o que fazer, recorrem aos que ficarão ricos com aquela eleição.

Por isso os escândalos sucedem-se sem que ninguém seja condenado. Por isso o crime continua a expandir-se, muitas vezes controlado a partir de prisões (espantem-se...como é possível, meu Deus ?), por isso os povos continuam a viver cada vez pior.

Pois...cá estamos. Será melhor vermos ou perdermos os próximos capítulos ? Em que vota ?

Monday, February 19, 2007

Disk - Disk - Disk

Sentia-me desconfortável se, depois de meu mais recente artigo não escrevesse algo que é verdadeiramente fascinante, aqui no Brasil, mas agora no sentido positivo do termo....é o Disk, Disk, Disk

Disk, significa "discar" um numero de telefone e pedir o que se quiser que, normalmente, a entrega é gratuita.

Os remédios cá para casa são obridos, naturalmente, pelo Disk Farmácia
A agua mineral, em garrafões de 20L pelo Disk Água
Pizas e Massas pelo Disk Pizza
Mercearias, items de drogarias....tudo pelo mais variados Disk's

Mesmo quando a entrega é complexaa e não seja um produto trivial, nós discamos o "Disk Tudo" e damos instruções exactas do que queremos feito.

Para dar os parabéns a alguém, para darmos uma flor à namorada (ou a uma delas, como é vulgar por aqui) que fazemos ? "Diskamos Emoções" e lá vai um carro cheio de altiflantes despejar a nossa mensagem a quem de direito.

Podemos comprar literalmente tudo sem sair de casa....
Que chatisse !

Amar o dinheiro e desprezar a forma de o obter

Como sabe quem acompanha estes blogs.. bom, além de eu gostar de ser mais regular do que estou a ser....gaita pareço um político...eu estou a viver no Brasil.


Entre várias coisas fascinantes que encontrei, umas boas, outras menos boas, há uma que me faz uma confusão doida. O amor incondicional ao dinheiro e o total desapego pelas acções que o garantem......vêm como é estranho.


Eu estou a viver na Bahia e não sei se é só uma questão estadual ou se é apanágio global. O pessoal daqui, talvez pelas suas dificuldades, coloca o dinheiro em primeiro lugar. Existem filas kilométricas para apostar no totoloto e similares, os angariadores do jogo do bicho (não sei ao certo o que é mas parecem ser apostas que vivem na clandestinidade) têm milhares de clientes fieis diários, as pessoas com algum cargo, aparentemente mais bem remunerado, estão sempre sujeitas a algum tipo de assédio....bom, esta é a ideia.

Pensar-se-ia que as pessoas preservariam imaculadamente tudo aquilo que lhes trás dinheiro, nomeadamente os clientes (profissões liberais) e patrões.....pois, é mentira !

Podia estar aqui durante 3 dias e 3 noites a dar exemplos, mas vou rreduzir a 2 que se passaram connosco:

A cabeleireira:
Foi recomendada à minha esposa uma cabeleireira a domicilio. Uma garota na casa dos 20 e poucos anos, mãe de uma bébé. Chamámo-la e ela começou a vir cá a casa 2 vezes por semana, o que dava um total de R$30/semana, o que equivalia a R$ 120/mês. Não é um valor insignificante se considerarmos que o salário mínimo é de R$ 350.
Uma vez que esta garota tinha o péssimo hábito de telefonar a cobrar no destino (vulgar por estes lados...mesmo para os seus próprios clientes), ficou sem trabalho, pois como nós não atendemos chamadas a cobrar e ela não queria gastar R$ 0,30 num telefonema...acabou por se perder o rasto da "próxima" visita e acabou por perder R$ 120/mês.

O Garçon
Conhecemos um garçon de uma cabana famosa que foi contratado pelo seu profissionalismo. Para o cativar foi-lhe oferecida uma comissão nas suas vendas maior do que a normalmente oferecida por cada cabana. Relembrando o salário minimo mensal de R$ 350, este garçon levava muitas vezes para casa em cada dia do fim de semana R$ 100 a R$150, ou às vezes até mais. Durante a semana em que o movimento é mais fraco levava diariamente entre R$ 30 e R$60, mais coisa menos coisa.
Pois, um dia houve um grupo que foi ao restaurante em que o preço da refeição já estava combinado, sendo apenas as bebidas pagas por cada um. Como este garçon (como todos os outros) não ia receber comissão na comida e apenas nas bebidas, recusou-se a servir a mesa.
Foi dispensado no dia seguinte.

Isto dá para acreditar ? Mas a esmagadora maioria dos locais onde se vai é assim. O que é preciso é fazer (muito) dinheiro hoje.

Este é de facto um povo sofrido e esforçado, mas eles não se ajudam a esles próprios. É uma situação muito complicada.

Em cima de tudo isto, o governo Brasileiro subsidia cada vez mais o desemprego. Veio nos jornais que a região de produção de café está com dificuldades enormes de mão de obra, pois os trabalhadores usuais estão em casa, pois beneficiam mais dos programas de assistência do que do salário a receber.

Faz lembrar do que se passa também em Portugal e na generalidade da Europa. Enquanto os americanos e asiáticos subsidiam o emprego, por aí e por aqui subsidia-se o desemprego. Como vamos sair deste ciclo vicioso ? Nenhum candidato a governante o vai anunciar....senão não é eleito...

Bom...divirtam-se no carnaval
B&A