Todos falam de democracia, métodos democráticos, formas democráticas de agir, mas não se tem lido ou estudado a evolução da democracia, desde que foi criada até aos dias de hoje, ou mesmo a forma como é utilizada.
A ideia, algo nebulosa, que paira no ar é que democracia é boa para todos e para tudo. O político afirma-se democrático, o cidadão ouve falar em democracia em todo o lado, logo deve ser coisa boa ...e então se o politico se afirma democrático vota-se nele.
Comecei a pensar neste tema, mais seriamente, com questão da queima dos lixos tóxicos originados em hospitais. O governo pretendia colocar em sufrágio universal, através de um referendo, se a queima devia ser feita nos fornos das cimenteiras ou em fornos especificamente construidos para o efeito.
Esta perspectiva....pôs-me a pensar...
Que raio ! Eu sou Engenheiro Electrotécnico com 50 anos e que nunca deixei de puxar pelo bestunto numa miriadade de actividades puramente técnicas....mas decidir sobre isto ?!?
Para começar teria de ler toda a literatura técnica sobre o tema....mas por outro lado duvido que a entendesse minimamente, uma vez que este é um assunto de uma especificidade extrema.
Mas então ? ...E a democracia ?
A Democracia começou na Grécia antiga, nomeadamente em Atenas, onde cidadãos - que eram quem podia votar e/ou ser eleitos - eram homens, não escravos nem estrangeiros. Isto é o que se vê na generalidade na documentação. Mas havia algo mais....para ser cidadão.
- Tinha de ser filho de cidadão
- A casar, tinha de casar com uma filha de cidadão
- Tinha de cumprir um curriculum de educação para a cidadania, dos 5 aos 18 anos, que incluia 5 áreas de estudo: Filosofia, Algebra, História, Idiomas e Artes
- Tinha de fazer serviço militar durante 2 anos
Só então, como cidadão, tinha os direitos politicos necessários á democracia ateniense, salvo se lhos tivessem retirado por algum delito, normalmente associado a fuga a impostos.
Independentemente dos aspectos negativos que possam rodear o sistema político da Grécia antiga, o facto é que já naquele tempo se entendia a necessidade da cultura e educação para formar quem viria a ter poder nas decisões de futuro.
Pois, este afinal era o meu problema na questão da eliminação dos lixos tóxicos. Eu não tinha, nem tenho, a educação necessária para tomar uma decisão. Com maioria de razão uma decisão que visasse a segurança e o bem estar da população.
Mas se eu com uma educação técnica esmerada, sem falsas modéstias, não tinha meios para tomar uma decisão, como é que a restante população, em geral, a podia tomar ?
A minha conclusão é que este tipo de decisões não pode ser tomado pela população, tem de ser tomado por especialistas...controlados por outros especialistas. Não pode ser o povo a escolher...porque não sabe. E ao tomar decisões para as quais não está habilitado, pode prejudicar-se de forma gravosa.
Claro que neste ponto, os "democratas" de trazer por casa já estão aos pinotes a dizer que este é o argumento com o qual começam as ditaduras....Eu respondo a sublinhar que esta é uma conversa séria (bom, talvez devesse dizer monólogo) e que fogachos "chapa 3" não eliminam o problema.
Olhemos para outras áreas....
Todos os meses é possível ler nos suplementos económicos dos jornais ou nas revistas económicas, que a empresa TAL, saíu de uma falência mais do que óbvia para um lucro tremendo, graças à contratação do gestor Fulano. Com isso mantiveram-se os postos de trabalho, asseguraram-se salários e manteve-se a estabilidade das comunidades onde a empresa estava localizada.
Pergunta-se: Os métodos de trabalho desse gestor terão siso democráticos, no sentido dele colocar à votação as suas decisões ?
Porque é que as decisões das empresas, nomeadamente as decisões estratégicas são tomadas apenas a nível de conselho de administração, muitas das vezes, juntamente com consultores externos especializados ? Porque não fazer sucessivos referendos entre todos os funcionários para decidir o que fazer ?
Porque é que num bloco operatório há pessoas que decidem na sua área o que fazer e não existem votações para decidir um curso de acção, principalmente quando as coisas correm mal ?
Porque é que existem hierarquias nas estruturas militares e as decisões não se tomam por votação ?
Cada vez mais assistimos, salvo raras excepções tais como os paises da Europa do Norte e de Leste, da India e da China, a um abandono de condições de educação global dos povos. Ou porque os povos são muito pobres, como na generalidade em África e América Latina ou porque os políticos, de tão apegados às fórmulas "democráticas" das promessas aliciantes, mas claramente impossíveis de cumprir, nunca querem largar o poder.
É preciso que um povo seja culto e educado para perceber se um candidato a um lugar de poder está a fazer promessas impossíveis ou se as suas promessas piorarão a vida do cidadão a prazo. Uma população que só se preocupa com o "hoje"....ou vá lá...com o "amanhã de manhá" não tem a cultura necessária para poder decidir sobre o seu próprio futuro, tal como não o tem uma criança a quem normalmente os pais ensinam, educam e dizem por que se deve fazer assim e não de outro modo.
Deixar os povos pouco esclarecidos decidir sobre o seu futuro, através de eleições, futuro esse que eles não têm capacidade de entender, pois não entendem as consequências dos seus actos "democráticos" é favorecer os cenários de bastidores, de enriquecimentos desmedidos dos sen-escrúpulos, é colocar num pedestal os detentores do poder atrás da cortina, pois os pobres coitados que foram eleitos a alguém têm de recorrer para pagar a sua eleição.
A democracia é o melhor sistema político para povos cultos e educados.
Mas ...e os outros ? Pois....aqui temos um busílis, mas também proponho uma solução....inspiremo-nos na antiga Grécia, mas naturalmente sem a cena do impedimento das mulheres, pois escravos já nem existem (bom, em teoria...mas fica para outro texto).
É só deixar o direito de voto a quem tenha recebido a necessária educação para ser considerado um bom cidadão. Quando eu era miúdo qualquer pessoa que tivesse a 4ª classe conseguia montar e gerir um negócio....hoje um recém-licenciado tem dificuldades em fazer contas de dividir ou mal lê jornais. Logo, o primeiro passo é a Educação. E para a cidadania a Grande Educação começa na escola primária com os conceitos de carcter, interesse social colectivo, curiosidade pelo que nos rodeia, pelo desenvolvimento do raciocínio...enfim, basicamente as 5 disciplinas da Grécia antiga, adaptadas ao mundo actual.
Quando os garotos de 10 anos souberem que devem respeitar o próximo, que não devem deitar lixo para as ruas, que devem estudar, que devem honrar a sua palavra, etc, etc, serão bons estudantes de cursos profissionais ou superiores e serão cidadãos conscenciosos dos seus deveres e dos seus direitos.
Claro que tudo isto tem um grande problema associado....herdado de décadas de "democracia" falaciosa: Nenhum candidato a governante (salvo raras e honrosas excepções) quer um povo culto, pois um povo culto não se deixa enganar e um povo culto acciona o que for preciso para pedir responsabilidades.
Pobres povos inebriados com a "democracia" fácil, inebriados com a falsíssima sensação de poder associada ao voto. São pobres que elegem pobres que, não sabendo o que fazer, recorrem aos que ficarão ricos com aquela eleição.
Por isso os escândalos sucedem-se sem que ninguém seja condenado. Por isso o crime continua a expandir-se, muitas vezes controlado a partir de prisões (espantem-se...como é possível, meu Deus ?), por isso os povos continuam a viver cada vez pior.
Pois...cá estamos. Será melhor vermos ou perdermos os próximos capítulos ? Em que vota ?

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