Monday, July 10, 2006

Partida para o Brasil

Pois é, houve um interregno algo maior nestas crónicas pois entretanto este vosso criado foi destacado para ir viver para o Brasil por motivos profissionais. O destino foi a cidade de Ilhéus, no estado da Bahia.

Dizer que o Brasil é um país de contrastes não passa de um cliché muito visto e que não transmite o significado literal do termo. O Brasil não é o local. O Brasil são as pessoas e a sua forma de estar diferente de tudo o que existe no mundo.

Confesso que não sei por onde começar ....mas ficar sem palavras num blog, não deixa de ser embaraçoso.


Casa

Tinhamos comprado uma casa numa viagem que fizemos há aproximadamente 6 meses e era necessário fazer “reformas” como aqui se diz. Por incrivel que possa parecer na casa que adquirimos 90% dos espaços não tinham luz natural. Parece que hoje já não deixam construir assim.


Bom, contratámos um arquitecto que nos foi recomendado e cujas ideias e planos mereceram o nosso aplauso. É uma pessoa prática e de bom gosto. Aprovámos o seu projecto, que no caso da cozinha previa uma ampla janela para um espaço ajardinado. Eis senão quando a
construção atrasou (graças a Deus) e quando chegámos e fomos ver a obra descobrimos que a janela, da cozinha, constante no projecto tinha sido fechada e aberta uma muito pequenina numa parede que dá para debaixo de um telheiro (?!?). Resultado: a cozinha parecia uma cave. Mesmo ao meio-dia seria necessária a luz eléctrica.

Motivo da mudança desconhecida para nós: “o espaço poderia fazer falta para armários”

Ainda fomos a tempo....mandámos abrir a janela.


Da nossa anterior visita ao Brasil, fomos propositadamente a uma loja de cerâmicas para escolher tudo o que havia para escolher. Revestimento de pavimentos, paredes, casas-de-banho, etc, etc....

Descobrimos também quando chegámos, que as faixas decorativas que tinhamos escolhido para a cozinha (sempre a cozinha....) tinham cores, amarela verde e azul, quando tinhamos escolhido tons metálicos apenas, nomeadamente prateados.

O que tinha acontecido ? Muito fácil !! A loja não tinha para entrega o que tinhamos escolhido e a Srª, que nos tinha atendido uns meses antes, decidiu escolher ela uma alternativa que ela achou que era bonita.

Ainda fomos a tempo.....fomos descobrir algo de que gostávamos.

Depois foi a cena com o mestre de obras. Pessoa com uma reputação séria na cidade, honesto...mas que não sabe fazer contas. O Orçamento, aliás muito atractivo de mão de obra, foi esgotado antes da casa estar pronta. Não por muito...mas ainda assim. Negociações demoradas e espremidas pois apesar de termos feito um contrato e reconhecido o mesmo notarialmente, o nosso advogado disse-nos que a Justiça pouco poderia fazer neste caso pois o dito empreiteiro nem devia ter dinheiro para qualquer tipo de indemnização.


Funcionária

Muito embora haja um desemprego condiderável tivemos grande dificuldade em arranjar uma mulher-a-dias que também tomasse conta de crianças, por um periodo de 8 dias, tempo inicial após a nossa chegada que necessitavamos para nos organizar minimamente. Acabámos por ter de pagar um ordenado mínimo para esses oito dias...


A funcionária dizia sempre que não queria comer, pois estava anémica (?!?)....bom, parecia a funcionária ideal, desde que não se repetisse a história do cavalo do inglês. Quando nos ausentávamos de casa desaparecia misteriosamente comida....todo o pão, o açucareiro ficava vazio, os legumes desapareciam do frigorífico....

Dieta estranha mas, seguramente, mais saborosa na ausência dos patrões.


No entretanto, ela afeiçoou-se enormemente a uma revista que comprei da Scientific American: Um número especial sobre o envolvimento matemático do Infinito. Uma série de textos e curiosidades dos mais variados matemáticos na sua abordagem quer do infinitamente grande quer do infinitamente pequeno.

Devorou a revista toda ! E por pouco não a levava com ela na bagagem....

Senti-me pequenino.....

Vida Social

No Brasil, ou pelo menos aqui pela Bahia, todos os motivos são suficientemente bons para fazer um forró. Um forró é algo inquestionável. Que interessa o motivo, se ele está aí ?

Com maioria de razão se são festas em dias grandes, como o S.João. A cidade aperalta-se e durante 2 semanas todos os dias à noite há grande forró. Palco na zona histórica, colunas de som gigantes e amplificadores que, reconhecidamente, não distorcem o som. Nós temos dificuldade em dormir na mesma, mas é um bom som. Todavia há alguma disciplina....mais ou menos 1h antes do terminus do show (diário) pelas 05:00, o volume de som aumenta (ainda mais). ....e eu que em novo me queixava do som da tv do vizinho....era um anjo.

Ilhéus é uma cidade pequena. Todos conhecem todos e todos fazem favor a todos, pois nunca se sabe quando podemos precisar de alguém. A força desta sociedade consiste nisso mesmo numa espantosa entreajuda.

Um dia recebemos um convite, através de uns amigos nossos, para ir a um forró num quartel. O motivo era, naturalmente, desconhecido de toda a gente, mas se o Coronel que comandava o regimento convidou....

Antes de ir para lá passámos num supermercado para levar comida feita, o que me levou a tecer considerações intimas sobre o orçamento que o Coronel tinha à sua disposição. Mas chegámos e fomos apresentados ao referido militar que, com enorme simpatia nos recebeu e fez questão em mostrar as instalações.

Ficámos pois a saber, não sem alguma surpresa, que as suas maiores dificuldades estavam em finalizar as obras de um recinto de festas, com churrasco e bar.

Passei grande parte da noite a falar com o Comandante da Marinha, que também estava presente. Um oficial alto, entroncado e com uma cultura geral absolutamente impressionante. Ele queixava-se que tem um muro para construir e pediu 6 orçamentos a 6 empresas. Está há mais de 3 semanas à espera dos mesmos. Nenhum apareceu ainda. Dizia ele: “não é a velocidade do cliente que importa, mas a velocidade do cara que está fazendo os orçamentos”

Numa das primeiras 6ªs feiras que por cá dormimos, no centro, pois a nossa casa ainda não está pronta, acordámos por volta das 04:00 com uma música altíssima que vinha de um carro. Sim, pois apesar das óbvias dificuldades de muitos locais existem muitos carros com instalações de som de vários milhares de watts. O objectivo, aparentemente único, é abrir as portas e bagageira e debitar o que lá têm.

Questionámos alguns amigos acerca da legalidade de tal acto, e foi-nos pacientemente dito que “pois...isso às vezes acontece nas noites de 6ª e sábado”

Paciência do povo

Este povo é dos mais pacientes que conheço. É verdadeiramente arrepiante a estoicidade com que se espera em filas kilométricas para executar qualquer acto por mais banal que seja, como pagar uma conta de luz.


Pese embora o facto de que o Brasil possui um dos mais avançados sistemas bancários do mundo, fruto dos anos de inflações galopantes em que não era possível que um depósito estivesse indisponível sequer 24h, o pagamento de serviços por máquinas multibanco não existe. Florescem assim negócios de pequenas empresas cujo único objecto de serviço é a....ida para a fila para pagar contas.

Mas ninguém se aborrece com ninguém. Num dos jogos do Brasil na Copa do Mundo, estávamos em casa de uns amigos em que o som da TV estava ligado (naturalmente) a um aplificador que alimentava uma coluna de som tipo exteriores. O som estava a um nível fisicamente agressivo e cada vez que por qualquer motivo se desligava, a esmagadora maioria dos presentes respirava de alívio......mas assim continuou até ao final do jogo, sem que ninguém reclamasse publicamente.


Ninguém fica indiferente ao Brasil. Ou se ama ou se detesta. Mas mesmo o amor carece de alguma força de vontade para nos libertarmos de alguns hábitos europeus. Uma vez que você se habitua, você ama os cara...viu ?

2 comments:

Anonymous said...

Gosto de te ler,
Gosto da tua forma de escrever,
Aprecio a tua cultura,
e delicio-me com o teu saber...

Obrigada!!

Anonymous said...

Gosto de te ler,
Gosto da tua forma de escrever,
Aprecio a tua cultura,
e delicio-me com o teu saber...

Obrigada!!